Este artigo aprofunda um tema de Atendimento ao comprador de imóveis.
Todo corretor atende compradores que visitam muitos imóveis, gostam de vários e não decidem por nenhum. A tentação é tratar a indecisão como algo a ser vencido com insistência. Só que a indecisão quase sempre tem uma causa concreta, e o trabalho do corretor é ajudar o cliente a identificá-la e a decidir com informação, não decidir por ele, dentro do processo descrito em atendimento ao comprador de imóveis.
Indecisão não é falta de interesse
Comprar um imóvel envolve, para a maioria das pessoas, o maior valor que vão movimentar em anos. É natural que a decisão demore. O sinal de alerta não é a demora em si, e sim a falta de avanço: o cliente continua visitando, mas os critérios não ficam mais claros e nenhuma opção chega à proposta.
Antes de qualquer outra coisa, vale confirmar se a qualificação inicial ainda vale. Muitas vezes o cliente mudou de critério, de prazo ou de orçamento e isso não foi atualizado. O roteiro para refazer essa conversa está em qualificação do comprador.
As causas mais frequentes
| Causa | Sinais | O que costuma ajudar |
|---|---|---|
| Critérios pouco definidos | Gosta de imóveis muito diferentes entre si | Rever o que é indispensável e o que é desejável |
| Dúvida sobre o pagamento | Adia sempre que o assunto é valor ou financiamento | Simulação com a instituição financeira antes de novas visitas |
| Outro decisor fora da conversa | "Vou ver com meu cônjuge", "meus pais vão ajudar" | Incluir os demais decisores nas visitas e nas informações |
| Receio de pagar caro | Pergunta muito sobre preço e compara anúncios | Mostrar dados de mercado e imóveis comparáveis |
| Dependência de outro negócio | Precisa vender o imóvel atual ou receber um valor | Definir a sequência das operações |
| Medo de errar | Pede muitas visitas ao mesmo imóvel, faz perguntas sobre riscos | Esclarecer documentação e etapas do negócio |
Identificar a causa muda a conversa. Um cliente com dúvida sobre financiamento não precisa de mais visitas, e sim de uma simulação. Um cliente cujo cônjuge nunca viu os imóveis não vai decidir sozinho, por mais que goste de uma opção.
Como descobrir a causa
Perguntas abertas costumam revelar mais do que perguntas de sim ou não. Algumas que ajudam:
- "Dos imóveis que vimos, qual chegou mais perto do que você procura? O que faltou nele?"
- "Se você tivesse que decidir hoje, o que ainda precisaria saber?"
- "Quem mais precisa estar de acordo com essa compra?"
- "A forma de pagamento já está definida ou ainda depende de alguma resposta?"
Registre as respostas no histórico do cliente (veja registro das preferências e do histórico do cliente). Com o tempo, o padrão das objeções fica visível.
Informação ajuda; pressão atrapalha
O Código Civil determina que o corretor preste ao cliente os esclarecimentos sobre a segurança ou o risco do negócio, as alterações de valores e outros fatores que possam influir no resultado (art. 723, parágrafo único). Esse dever aponta o caminho: o corretor ajuda a decisão quando informa bem.
Apoiar a decisão significa:
- organizar as opções em um quadro comparativo com preço, metragem, condomínio, localização e pontos fortes e fracos de cada uma;
- esclarecer a documentação do imóvel escolhido e as etapas até a escritura (veja do aceite da proposta ao contrato);
- mostrar dados de mercado quando a dúvida for o preço (veja preço de mercado);
- explicar o que acontece depois de uma proposta escrita, para que o cliente saiba que fazer uma proposta não é o mesmo que fechar o negócio.
Já os recursos de pressão (anunciar que "outro cliente vai fechar hoje" sem que isso seja verdade, criar prazos artificiais, insistir em ligações seguidas) comprometem a confiança e podem levar a uma compra da qual o cliente se arrepende. Informação falsa sobre a concorrência pelo imóvel é, além disso, incompatível com a conduta profissional esperada do corretor.
Reduzir o número de opções
Um erro comum com clientes indecisos é ampliar a busca. Mais opções costumam aumentar a dúvida. Depois de algumas visitas, proponha voltar a dois ou três imóveis que mais se aproximaram do perfil e compará-los com calma. Se nenhum serve, a solução é redefinir os critérios, não visitar indefinidamente.
Incluir os demais decisores
Quando a decisão envolve outras pessoas, como cônjuge, familiares que ajudam no pagamento ou sócios, a indecisão muitas vezes reflete a ausência delas. Proponha uma visita com todos os decisores ao imóvel mais bem avaliado e envie as informações para todos, e não só para quem conduz o atendimento. As particularidades dessas visitas estão em visitas com famílias e mais de um decisor.
Quando a decisão depende de outro negócio
Compradores que precisam vender um imóvel para comprar outro tendem a adiar a escolha porque não sabem quando terão o dinheiro. Nesse caso, o trabalho é organizar a sequência das operações, assunto tratado em comprador que precisa vender outro imóvel.
Dar tempo também é uma decisão profissional
Há casos em que o cliente simplesmente não está pronto: o prazo mudou, a situação financeira não está definida, a família ainda discute o que quer. Insistir nesses momentos gasta o tempo do corretor e a paciência do cliente. É mais produtivo combinar um novo contato em uma data definida, registrar o motivo e manter o cliente informado sobre imóveis que realmente se encaixem no perfil. A organização desses retornos está em controle de follow-up.
Exemplo hipotético
Exemplo ilustrativo, não se refere a um caso real. Um casal visitou oito apartamentos em dois meses. Em todos, um dos cônjuges gostou e o outro levantou objeções. Ao revisar o histórico, o corretor percebeu que as objeções eram sempre sobre o tamanho da cozinha, ponto que nunca tinha sido registrado como critério. Depois de uma conversa com os dois, a cozinha passou a ser item indispensável, a busca foi refeita com esse filtro e a lista caiu para três opções.
Erros comuns
- Tratar a indecisão como resistência a ser vencida, e não como sinal de informação faltando.
- Ampliar a busca em vez de rever os critérios.
- Conduzir o atendimento com uma só pessoa quando a decisão é de várias.
- Usar urgência artificial ou informações não verdadeiras sobre outros interessados.
- Não registrar as objeções e repetir os mesmos erros a cada visita.